Há cerca de dez anos, um sacerdote perguntou-me como era a vida missionária! Creio tê-lo melindrado quando lhe disse que na missão muitas vezes se fazia mais e melhor com menos recursos humanos e materiais. Hoje, não só tenho certeza disso, como creio que a Igreja que não é missionária, que não está em permanente saída para as periferias existenciais, se pode desdobrar em múltiplas comissões e reuniões mas é cada vez mais a imagem de uma ‘pescadinha de rabo na boca’.

Os nossos bispos sabem-no! Nas suas visitas pastorais apreendem a realidade eclesial que está muito além das romarias e dos foguetes: falta de formação bíblica e litúrgica, comunidades envelhecidas, os mesmos líderes de movimentos há dez ou vinte anos, uma catequese que parece uma escola e não favorece o encontro pessoal com Jesus Cristo, propostas para os jovens feitas a partir do nosso cansaço e não da sua criatividade e alegria, do nosso mundo apático, que assim se torna cada vez mais também o seu.

Por isso, os nossos pastores manifestaram, na carta pastoral “Todos, Tudo e Sempre em Missão” o forte desejo de «retomar com novo impulso a transformação missionária da vida e da pastoral» (nº 1). Este documento, de vinte de maio passado, serviu para convocar toda a Igreja Portuguesa a viver um ANO MISSIONÁRIO, centrado na Palavra e na Eucaristia, que irá de outubro de 2018 a outubro de 2019, terminando com um MÊS MISSIONÁRIO EXTRAORDINÁRIO, como deseja o Papa Francisco.

Os bispos portugueses esperam que todos façamos a experiência da missão, de sair (nº 9), não atrás de ‘palmadinhas nas costas’ ou ‘rojões e vinho verde’, mas para as verdadeiras periferias aonde ninguém quer ir e onde falta a luz do Evangelho, há muita solidão e sofrimento; mais nas ruas e nos bares, do que nas sacristias. É preciso «passar de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária» (nº 2), que renove pessoas e estruturas colocando «a missão de Jesus no coração da própria Igreja» (nº 3).

Estou convencido de que, se tivermos a coragem de sonhar «uma pastoral missionária “para” e “a partir” dos jovens» (CP, nº 9) e sentirmos o apelo da sua urgência, este Ano Missionário deixará marcas profundas na vida da Igreja. Podemos até chegar ao fim do ano a fazer exatamente as mesmas coisas; mas as motivações seguramente serão novas, mais de Deus, pois «a missão renova a Igreja, revigora a sua fé e identidade, dá-lhe novo entusiasmo e novas motivações» (nº 4). Se, ao invés, esperarmos para setembro ou outubro para ver o que se vai fazer e nessa altura o ‘conselho de anciãos’ decidir o que os jovens gostam e querem, o mais provável é que nada mude e o pouco que se faça seja para, mais uma vez, ‘inglês ver’.

Quanto a mim, tomo como referência o ‘evangelho da viúva pobre’ (Lc 21,1-4). A atitude daquela mulher é louvada por Jesus, pois não partilhou do que lhe sobrava, numa atitude meramente assistencialista, mas da sua pobreza, doando-se a si própria juntamente com aquela oferta. É essa a chave da missão! Vamos a ela!

 

Frei Hermano Filipe, OFMCap.
Diretor da revista BÍBLICA

*Editorial da revista BÍBLICA, nº 377, Julho/Agosto 2018

 

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