Escrevo na viagem de regresso a Portugal depois de algumas semanas em Timor-Leste. Na segunda escala, entre Denpasar e Singapura, uma hospedeira de bordo, enquanto servia o café, disse-me que eu tinha “um ar muito feliz”. Tornou-se ainda mais vivo o romance histórico que estava a ler de Shusaku Endo: «Silêncio», recentemente adaptado ao cinema por Martin Scorsese.

Fiquei a imaginar a “felicidade” dos mártires do Japão ao terem descoberto no meio das perseguições, da fome e da doença, a verdadeira fé, liberta de todo o aparato externo, a verdadeira fraternidade, onde cada um se coloca “na pele do outro”, a verdadeira santidade, na doação total de si mesmos àqueles a quem Deus os enviou. Lembrei-me dos anos vividos em Timor-Leste e de como a simples presença, a partilha de vida e o esforço conjunto em tentarmos responder cada dia aos desafios sempre novos que Deus nos colocava, nos tatua na cara esse “ar de felicidade”, a felicidade de quem se sente a caminho de algo – ou Alguém – maior do que nós próprios. Pensei ainda em tantos padres que experimentam a solidão, o sofrimento e a angústia no seu trabalho nas prisões e nos hospitais ou em paróquias muito “difíceis”.

Acabadas as perseguições do Império Romano, “os cristãos calçaram as pantufas e alaparam-se no sofá”. Mas ainda há muitos países onde as igrejas são incendiadas e os cristãos são perseguidos, passam fome e sede, são expulsos das suas próprias casas e aldeias, são presos e torturados: Síria, Irão, Iraque, Iémen, Arábia Saudita, Eritreia, Líbia, Somália, Nigéria, Índia, Paquistão, Afeganistão, Coreia do Norte, China, entre tantos outros. E quem é o Padre, Consagrado ou Leigo comprometido que pode presumir de o seu trabalho em Lisboa, Fátima ou Porto ser mais significativo ou urgente para o Reino de Deus do que a presença missionária num dos países atrás mencionados, ou ainda numa das muitas situações de indigência na velha Europa?

Não deveriam a Igreja (universal pela sua natureza) e as Ordens Religiosas preocuparem-se menos com a sobrevivência das suas estruturas e mais em encontrar uma forma de organização e de presença que privilegie a vivência do Evangelho nos ambientes mais exigentes? Não aconteça o Mestre mandar uma coisa e nós andarmos alegres e contentes a fazer outra! A “perfeita alegria” para São Francisco de Assis não está nas estruturas mas na vivência das bem-aventuranças sobretudo nas condições mais difíceis. O “ar feliz” dos santos não é fruto de “palhaçada” e “patetice” enquanto nos subúrbios da cidade um irmão ou uma irmã se afunda no mundo da droga ou da prostituição. O “ar feliz” dos santos é fruto da coragem em “sair do sofá” e ser parte da solução.

Ao iniciarmos o Ano Missionário tenhamos a coragem de repensar toda a nossa vida e serviço pastoral à luz das bem-aventuranças. Talvez isso nos coloque num cenário de grandes dificuldades; mas pelo menos não teremos Deus e os pobres, com razão, a dizerem-nos: “Tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber, era peregrino e não me recolhestes, estava nu e não me vestistes, doente e na prisão e não fostes visitar-me” (Mt 25,42-43).

 

Frei Hermano Filipe, OFMCap.
Diretor da revista BÍBLICA

*Editorial da revista BÍBLICA, nº 378, Setembro/Outubro 2018