Ao longo da vida, estamos sujeitos a enfrentar diversas perdas que provocam em nós um sofrimento muitas vezes difícil de superar: a perda de um emprego de que gostamos ou das relações de trabalho decorrentes da aposentação, a morte de alguém que estimamos ou amamos, a perda de saúde que se vai deteriorando com o passar dos anos, etc.

Estas e outras situações podem desencadear um processo de luto que pode ir da tensão ao desespero, passando tantas vezes pelo desânimo, o choro, a incapacidade em dormir ou comer e ainda a apatia e a perda da vontade de viver. Mas a perda de alguém que amamos e todo o processo de aceitação dessa perda até à reorganização da vida sem essa pessoa que gostaríamos que estivesse eternamente ao nosso lado será, de todos, o processo de luto mais doloroso.

O diretor da unidade de luto de Medelín, Colômbia, Jorge Montoya Carrasquilla, citado por José Carlos Bermejo, com quem partilhou estratégias e ideias sobre a intervenção em luto, afirma: «Em nenhuma situação como no luto a dor produzida é total: é a dor biológica, psicológica, social, familiar e espiritual. Na perda de um ser querido dói o passado, o presente e especialmente o futuro. Dói toda a vida no seu conjunto».

O processo de luto – que não é uma doença – dificilmente levará menos de um a dois anos mesmo nos casos menos complexos, podendo estender-se por mais de uma década, tudo dependendo da qualidade da relação (mais ou menos próxima) e da forma como ocorreu a morte (inesperada ou anunciada). Uma coisa é certa: sem ajuda, é muito difícil superar o luto.

Muitas pessoas chegam aos nossos lares após a morte do/a companheiro/a de uma vida inteira. Por isso, além de estarem a iniciar um processo de luto pela perda da pessoa amada, terão ainda, ao mesmo tempo, de fazer o luto das suas relações sociais (e tantas vezes familiares), da sua casa e dos objetos que estimava.

Participar nesse processo não é tarefa fácil para os nossos colaboradores, também eles, tantas vezes, em processo de luto, quer pela perda de familiares seus, quer de utentes dos próprios lares, a quem se dedicam todos os dias até ao seu último suspiro. É por isso que se demonstra crucial um acompanhamento dos próprios colaboradores, quer ao nível emocional, quer ao nível formativo e tal só é possível com um trabalho multidisciplinar para que nunca resulte num atendimento despersonalizado e mecânico dos utentes em processo de luto.

Revela-se, paralelamente, de extrema importância, a integração da família no processo de luto, ainda que este seja pessoal e de carácter único, singular a cada pessoa. A vivência do luto será potencializada no seio de uma família coesa e com abertura para a comunicação e expressão das emoções, sentimentos e pensamentos. O apoio mútuo entre os membros de uma família colabora para um processo de ajustamento adaptativo à situação de perda. Isto significa que a visita dos familiares – quando não se tratem de relações tóxicas – deve ser o mais regular possível, dando espaço à escuta e à expressão dos sentimentos, à partilha da vida presente – que inclui e não exclui o utente – e não apenas de memórias passadas.

Por último, a dimensão espiritual. Não é por acaso que os nossos lares têm capela e oferecem aos utentes a oportunidade de continuarem a celebrar a sua fé. A fé é, na verdade, para muitas pessoas em luto – não todas e isso deve ser respeitado – um verdadeiro bálsamo que ajuda a diminuir ou dar sentido ao sofrimento. O luto cristão é um luto de quem encontra na fé razões de esperança. Por isso seria necessário integrar com coragem a dimensão espiritual nas propostas terapêuticas para intervir no luto, onde a celebração dos sacramentos pode não chegar e a presença do capelão se poderia e deveria exigir.

 

Frei Hermano Filipe, OFMCap.
Capelão e Assistente Espiritual da Santa Casa da Misericórdia de Barcelos

*Artigo publicado no Boletim «Encontro de Gerações» da Santa Casa da Misericórdia de Barcelos, nº 42, Junho 2018

 

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